Montag, Juni 21

depois.

Sentada na noite de uma dor que nunca passa, eu fito o para-além-de: sinto o engasgo do minuto seguinte, o desespero do corpo caído e do não-lugar desse corpo no mundo conhecido. Doa-se à mim o estranhamento e derepente nem sei o que fazer com os vultos acumulados e o não-institucionalizado, o não-experimentado. Sinto que foi irresponsável essa última vez mas agora o estrago já foi feito,  e disso nem tenho certezas agora. E minhas malas estão feitas, os papéis meticulosamente organizados e os livros na bolsa porém ainda há compromissos, obrigações matando-me aos poucos - ainda morro nas próximas duas semanas. E se desfaleço, caio dentro desse buraco velho conhecido antes adormecido agora revivido, é porque dentro de mim criei começo, náusea, verdade, peso, carne esfolada ao sangue, dependência de uma vida sã devidamente adequada devidamente enquadrada aos entendimentos desses aí - os que se dizem. E se permito-me falar aos meus é por uma causa, necessidade pulsante sem outra maneira de ser. Tempo demais já se passou e permanci muda e calada ao sol, ao vento, chuva e tempestades passageiras mas contínuas, bocas que abrem e fecham mas nada falam a não ser da superfície dos dias e de como é delicado, solene tratar desses assusntos, oh por deus! livrai-me dos atoleimados mergulhados na própria ignorância. Novamente, se falo é porque ao menos toquei no meu ouro-velho e fugi - não tive ainda coragem de enfrentá-lo cara limpa. E digo aqui o momento da queda, imediatamente anterior ao da fuga. Rostos e gentes e entes de todas as espécies encarando-me e eu tendo de enfrentá-los por não haver escape. Forte tive de fazer-me, mesmo envolta na fraqueza de abrir os olhos, desviando-os, assim, do de dentro. E sobreposições e medos e quedas e covardias e desgostos e assassinatos em potencial e mortes em potencial e a sua própria morte num segundo só vieram e dispersaram no momento seguinte. E descobri não saber viver esses momentos, ser distraída e relapsa - tanto falar mas nem da superfície ser capaz de sair. E aos poucos fui saindo mesmo sabendo não ter vivido aquilo até o esgotamento - e quem sabe viver no esgotamento não seja um pulo à loucura? Sei de quase nada, muito pouco, mas o que sinto agora é um profundo desfacelamento e necessidade de construção, rever os alicerces. E compreendo agora quando falam uns poucos sobre ser visitado pelo estranho e de lá nunca retornar - o quão perigoso é esse toque que dei. E compreendo o desmoronamento que fizeste do seu quarto-estética para seu quarto-verdade, aonde as coisas podem ter razão de; acontecem. Conheço dois que se valeram disso. Do mais próximo agora compreendo a dor, compartilhando-a. Abrir uma fresta e querer permanecer o mesmo é pedido de morte. Morte de cruz, anti-sabedoria do mundo, revés do nascimento é acolher o que me destroi para poder transformar. E se nem sei o que me faz menos é porque ainda há muito inconsciente mas estranha força surgiu em meio a esse processo e me disse: você tem que ir lá e virar a chave. E sinto agora que posso ir lá e virar a chave, porque carrego um segredo de experiência, de toque do meu ouro. Antes de edificar, desconstruir o resto, quase não ser. Essa é a tarefa.

Montag, Juni 14

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De mim ontem, lembro-me do cansaço de estar aprisionada a um corpo que não me pertencia e a uma lógica que não permitia-me ser; o outro lado apresentou-se de forma drástica e real e por pouco lá não fiquei. A vivência da ausência de sentido agora por mim foi vivida.
De lá levo a experiência calcada no corpo e não mais construída nos mundos idealizados das frases-de-efeito e dos conselhos de teoria: lucidez e loucura andam juntas.
É muito fácil estalar os dedos e puf! desaparecer. Minha grande luta é com a vida.

Dienstag, Juni 1

Para Louise, com amor.


"Meu nome é Louise Josephine Bourgeois. Nasci em 24 de dezembro de 1911, em Paris. Toda a minha obra dos últimos cinquenta anos, todos os meus temas, foram inspirados em minha infância."






"Em nossa recusa a enfrentar o medo, recuamos para a nostalgia. O medo nos condena à rejeição do presente. O presente se mantém intolerável. Devemos pedir ajuda ao passado para solucionar os problemas do presente."


Montag, Mai 24

Para que a alma não desfaleça

Acordei por cutucões fortes no joelho. Abri os olhos aflita e vi um monstrinho indo embora, entre risadas e deboches. Instantes e ainda não acreditava muito no ocorrido. Uma espécie de arrepio subiu-me espinha pescoço nuca medo de estar dentro de algo na qual nem sei o nome, possuída por entes e vozes que luto para transpor.
Assim, de pronto povoada estava de dúvidas e sofreguidão quando abafei um grito dilacerante d'alma - e entenda-me, tal grito era-me importante, constituía nascimento e responsabilidade d'uma dor recém surgida, pulsante; abafá-la por receio de olhares adversos, julgamentos não pertencentes a mim só fez-me ser mais um pouco assassina de mim mesma: morte lenta não desejosa. 
E talvez devesse desculpar-me pelos enferrujos, misérias, atos e omissões; pela falta de forma e o modo que são construídas as relações e ausências. Talvez tudo deva feder um pouco, mas me é necessário esse movimento: tirar as carcaças devagar, cuidando para que a carne não desfaleça, atenta à alma presa ao corte reto, dando-lhe precisão. Jogar oxigênio à ferida, fazendo-a borbulhar e arder como pimenta e sal aos olhos. 

Vizinho de ferida.



"A vida de um homem é o instante onde o mundo, em vão, se ilumina. A pedra, a lua e o rosto do outro não seriam comemorados e celebrados se o breve trânsito de nossa aparição não contasse com a língua e com a palavra. Também os gestos ou a dança e a pintura igualmente celebram, mas é na palavra das línguas que o mundo deixa de ser mudo e pode tocar a aparição. Se o homem deixar de existir e apenas o lagarto ou outro animal grunhir para a lua, então ela será menos lua e algum deus criador que acaso persista em sua incansável persistência terá de reconhecer que sua “obra” não é mais devidamente celebrada e ele, junto de seu imenso narcisismo trabalhista, teria de se suicidar. Celebrar é estar exposto e atingido pelas coisas a ponto de, ao dizê-las, guardar-lhes a vibração, comemorá-las. Estar atingido também pela proximidade do rosto do outro é enxergá-lo a partir do aberto, não sendo o aberto mais do que o lugar de uma aparição intrinsecamente frágil, de uma aparição-desaparição. Mas o homem não gosta de estar exposto; ele é alérgico ao lugar. E, enquanto alérgico, converteu-se num animal blindado e, quando alguém aponta para o céu (como um personagem de Bernhard) e diz: “veja, ali está aberto, vejam, está aberto; a palavra a-ber-to está redigida no firmamento”, então, já não se percebe o que isso quer dizer, pois o homem blindado gosta de viver no fechado e de medir a palmo. O homem blindado expulsou a hospedagem: não está aberto à visitação dos afetos ou da palavra."

Juliano Pessanha, vale a pena.

Dienstag, April 27

Última carta de Virgínia Woolf à Leonard Woolf

"Querido,







Tenho certeza de que estou enlouquecendo de novo.
Sinto que não podemos passar por outra daquelas
terríveis fases. E desta vez não ficarei curada.
Começo a ouvir vozes, e não posso me concentrar.
Assim, estou fazendo o que me parece melhor.
Você me deu a maior felicidade possível. Não creio
que duas pessoas pudessem ser mais felizes até
chegar esta doença terrível. Não consigo mais lutar.
Sei que estou estragando a sua vida e que sem
mim você poderá trabalhar. E você vai, eu sei. Está
vendo, nem consigo mais escrever adequadamente.
Não consigo ler. O que quero dizer é que devo a você
toda a felicidade da minha vida. Você foi absolutamente
paciente comigo e incrivelmente bom. Quero dizer isso —
e todo mundo sabe. Se alguém pudesse me salvar, teria
sido você. Perdi tudo, menos a certeza da sua bondade.
Não posso mais continuar estragando sua vida. Não creio
que duas pessoas tenham sido mais felizes do que nós fomos."






Virginia Woolf

Samstag, April 24

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Sim, ontem elas tornaram-se fortes. Um amontoado de vozes, todas bem corridas, justapostas, gritando, berrando absurdos irreconhecíveis. No fim exclamaram: 'tudo bem', então saí do transe e percebi que estava luzes acesas sozinha. Por enquanto perturbadoras não são, percebo multidão de almas vazias tantas faces abafadas de mim, o gozo sufocado e poderia realmente convencê-las a vir ao lado de cá, mostrarem-se minhas. Minha convicção de vida não é tão certeira quanto à de vocês, até porque pele, face, osso, espinha dorsal caixa torácica coração envolto por estimulantes remédios e um pouco de desprezo é morte letal, veneno letárgico e prefiro estar além pairando por entre esses ruídos gritantes os meus medos os meus habitares monstros, as minhas agonias as minhas exatidões dúvidas pergunto ao velho: 'como posso não estar em beiras frestas liminaridades e ser inteira sem parecer-me esdrúxula, sem cansar-me de minha voz e palavras desgarradas escritas? Sinto que morro um pouco ao fim de cada risada, ao fim de cada acontecimento absurdo indecente inesperado e percebo agora que não são os outros, mas eu própria a geradora de meus infernos'. A certeza de saber minha responsabilidade o câncer gestado nas minhas entranhas a minha - sim, minha propriedade - dor calcada na recusa da carne nojo do que me forma - as minhas formas. E esse não se faz problema maior - já o foi -, mas a saudade de ser dessas questões constituídos os meus terrores e saber-me superfície larga e rasa. Sinto minha dor agora dentro de um rio e o corpo submerso e preciso de força para o pé no chão para que correntezas fortes não façam do meu ar alimento faltante. Viveria só com os gastos e restos, estaria armada das velhas experiências e sabedorias e sei, estaria aberta ao afogamento, mas na menor e menos drástica das formas. Agora temo estar caindo, folhas e galhos resvalam no meu corpo, escapam às mãos. 
Sinto sua bondade, mas suas perversões me são mais caras.