Freitag, September 17

Sentia o ar denso e monstrinhos a habitar corpo, pesados como bolas de aço presas aos pés. Estava por descobrir seus lugares-incomuns. Estava não, descobriu o momento-seguinte, a marcação dos dedos no inferno que era não conseguir fazer-se entender por ouvidos e olhos dos outros.

Dienstag, August 31

Talvez naquela hora derradeira eu finalmente acreditei que os pressentimentos pré-morte vinham numa alada sensação corpórea, tato, cheiro, do daquela presença a circundar a sala vazia ao lado e logo após tal qual fumaça embriagar os ambientes todos. Sim, porque outro dia fui visitada - e nem me lembro antecedentes - por aquela dos nossos receios desconhecidos, e senti a presença na superfície, o seu toque acordando minhas células, exigindo instintos de sobrevivência, ser arisco, ser lugar-nenhum. Deu-se assim o estopim: deitada estava, pensamentos longe, descomprometidos e num momento abrupto sinto um toque no meu rosto, carícia de quem admira - na hora entendi que tratava-se da morte, não de foice, enegrecida, mas apenas uma passante-visitante. Fiquei quieta, esperando o que talvez tivesse a dizer. Porém, da mesma maneira que veio, foi-se. Acariciou-me inteira, toque aveludado, quente. Senti vontade de entregar-me àquilo, de ser levada à sua revelia, rodopiando aquela nova maneira de ver outros lados, outros olhares do mesmo. Viver madura, viver o tempo, vinculos desfeitos, andar pés no barro do divino.

Dienstag, August 17

O cheiro daquela terra flutuante persistia por adentrar poros. Eu somente queria adensar-me em mim e ficar restos de dias instalada nos naqueles nichos de madeira podre, barrancos, vermelhidões. Sentia cada passo como queda marcada, como pé latejante desejoso percorrer encontrar sentidos. Estar à beira de corpo também exigia sacrifícios tolos e muitas apegações. Então vi-me não mais circular habitando-me centro mas sim pequenina borda irregular e varões folhas o pensar escasso - o ritmo compassado de decisão assim, de pressa, de quem não mais pertence àquela vida, a essa vida de agora, comprimida, necessitada de tantos outros aléns, tantas carências por desvenciliar, tantos erros por reparar sem lamúrias ou reclamações - apenas sei-me menos por cada calcanhar tocado a terra, cada sopro dado à tempestade, cada engasgo do meu falso, do meu fio de navalha a sustentar existência chula, indiferente. De querer ventar-me e ser barroca nos pontos de encontros, sinuosidades, dobras,

Dienstag, August 3

E dos dedos fracos quase nada pressão no papel na tela teclado que se faz pesado e é preciso concentração vontade e engolir o choro compulsivo para parcas palavras grudadas. E se a discussão se faz sempre essa e não me faço mais e circulo incessantemente até ao desgaste aos dedos ralados no asfalto é porque burra me faço

Donnerstag, Juli 8

Existia uma menina que protegia-se do contato externo pelo medo da dor de enfrentar seus monstros. E lá estava ela: posição confortável, retraída num canto de casa, quieta, solene. Derepente surgiram bufões euforia e um reconhecimento - tão forte que a fez levantar e caminhar até ele. Mesmo ressabiada e sabendo dos riscos pos-se a caminho; perto dele - do reconhecimento - as coisas pareciam compartilháveis, menos estranhas - eram os mesmos olhares e escuta, e estava tão feliz por aquele par de perto, de presença. Mas mal o tocou e ele esfacelou-se todo, como miragem no deserto, como areia movediça, como depois do primeiro toque com a água. Ela fez-se triste, encostou a cabeça e chorou um pouco sua burrice mesmo sabendo passo importante dado. Resolveu não mais confiar em tais coisas parecidas e fechar-se novamente, mas ainda teme a sua reação se novamente encontrar reconhecimentos raros por aí. Não saberia como agir, onde colocar as culpas da vida morna que leva.

Montag, Juni 21

depois.

Sentada na noite de uma dor que nunca passa, eu fito o para-além-de: sinto o engasgo do minuto seguinte, o desespero do corpo caído e do não-lugar desse corpo no mundo conhecido. Doa-se à mim o estranhamento e derepente nem sei o que fazer com os vultos acumulados e o não-institucionalizado, o não-experimentado. Sinto que foi irresponsável essa última vez mas agora o estrago já foi feito,  e disso nem tenho certezas agora. E minhas malas estão feitas, os papéis meticulosamente organizados e os livros na bolsa porém ainda há compromissos, obrigações matando-me aos poucos - ainda morro nas próximas duas semanas. E se desfaleço, caio dentro desse buraco velho conhecido antes adormecido agora revivido, é porque dentro de mim criei começo, náusea, verdade, peso, carne esfolada ao sangue, dependência de uma vida sã devidamente adequada devidamente enquadrada aos entendimentos desses aí - os que se dizem. E se permito-me falar aos meus é por uma causa, necessidade pulsante sem outra maneira de ser. Tempo demais já se passou e permanci muda e calada ao sol, ao vento, chuva e tempestades passageiras mas contínuas, bocas que abrem e fecham mas nada falam a não ser da superfície dos dias e de como é delicado, solene tratar desses assusntos, oh por deus! livrai-me dos atoleimados mergulhados na própria ignorância. Novamente, se falo é porque ao menos toquei no meu ouro-velho e fugi - não tive ainda coragem de enfrentá-lo cara limpa. E digo aqui o momento da queda, imediatamente anterior ao da fuga. Rostos e gentes e entes de todas as espécies encarando-me e eu tendo de enfrentá-los por não haver escape. Forte tive de fazer-me, mesmo envolta na fraqueza de abrir os olhos, desviando-os, assim, do de dentro. E sobreposições e medos e quedas e covardias e desgostos e assassinatos em potencial e mortes em potencial e a sua própria morte num segundo só vieram e dispersaram no momento seguinte. E descobri não saber viver esses momentos, ser distraída e relapsa - tanto falar mas nem da superfície ser capaz de sair. E aos poucos fui saindo mesmo sabendo não ter vivido aquilo até o esgotamento - e quem sabe viver no esgotamento não seja um pulo à loucura? Sei de quase nada, muito pouco, mas o que sinto agora é um profundo desfacelamento e necessidade de construção, rever os alicerces. E compreendo agora quando falam uns poucos sobre ser visitado pelo estranho e de lá nunca retornar - o quão perigoso é esse toque que dei. E compreendo o desmoronamento que fizeste do seu quarto-estética para seu quarto-verdade, aonde as coisas podem ter razão de; acontecem. Conheço dois que se valeram disso. Do mais próximo agora compreendo a dor, compartilhando-a. Abrir uma fresta e querer permanecer o mesmo é pedido de morte. Morte de cruz, anti-sabedoria do mundo, revés do nascimento é acolher o que me destroi para poder transformar. E se nem sei o que me faz menos é porque ainda há muito inconsciente mas estranha força surgiu em meio a esse processo e me disse: você tem que ir lá e virar a chave. E sinto agora que posso ir lá e virar a chave, porque carrego um segredo de experiência, de toque do meu ouro. Antes de edificar, desconstruir o resto, quase não ser. Essa é a tarefa.

Montag, Juni 14

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De mim ontem, lembro-me do cansaço de estar aprisionada a um corpo que não me pertencia e a uma lógica que não permitia-me ser; o outro lado apresentou-se de forma drástica e real e por pouco lá não fiquei. A vivência da ausência de sentido agora por mim foi vivida.
De lá levo a experiência calcada no corpo e não mais construída nos mundos idealizados das frases-de-efeito e dos conselhos de teoria: lucidez e loucura andam juntas.
É muito fácil estalar os dedos e puf! desaparecer. Minha grande luta é com a vida.