Dienstag, August 3

E dos dedos fracos quase nada pressão no papel na tela teclado que se faz pesado e é preciso concentração vontade e engolir o choro compulsivo para parcas palavras grudadas. E se a discussão se faz sempre essa e não me faço mais e circulo incessantemente até ao desgaste aos dedos ralados no asfalto é porque burra me faço

Donnerstag, Juli 8

Existia uma menina que protegia-se do contato externo pelo medo da dor de enfrentar seus monstros. E lá estava ela: posição confortável, retraída num canto de casa, quieta, solene. Derepente surgiram bufões euforia e um reconhecimento - tão forte que a fez levantar e caminhar até ele. Mesmo ressabiada e sabendo dos riscos pos-se a caminho; perto dele - do reconhecimento - as coisas pareciam compartilháveis, menos estranhas - eram os mesmos olhares e escuta, e estava tão feliz por aquele par de perto, de presença. Mas mal o tocou e ele esfacelou-se todo, como miragem no deserto, como areia movediça, como depois do primeiro toque com a água. Ela fez-se triste, encostou a cabeça e chorou um pouco sua burrice mesmo sabendo passo importante dado. Resolveu não mais confiar em tais coisas parecidas e fechar-se novamente, mas ainda teme a sua reação se novamente encontrar reconhecimentos raros por aí. Não saberia como agir, onde colocar as culpas da vida morna que leva.

Montag, Juni 21

depois.

Sentada na noite de uma dor que nunca passa, eu fito o para-além-de: sinto o engasgo do minuto seguinte, o desespero do corpo caído e do não-lugar desse corpo no mundo conhecido. Doa-se à mim o estranhamento e derepente nem sei o que fazer com os vultos acumulados e o não-institucionalizado, o não-experimentado. Sinto que foi irresponsável essa última vez mas agora o estrago já foi feito,  e disso nem tenho certezas agora. E minhas malas estão feitas, os papéis meticulosamente organizados e os livros na bolsa porém ainda há compromissos, obrigações matando-me aos poucos - ainda morro nas próximas duas semanas. E se desfaleço, caio dentro desse buraco velho conhecido antes adormecido agora revivido, é porque dentro de mim criei começo, náusea, verdade, peso, carne esfolada ao sangue, dependência de uma vida sã devidamente adequada devidamente enquadrada aos entendimentos desses aí - os que se dizem. E se permito-me falar aos meus é por uma causa, necessidade pulsante sem outra maneira de ser. Tempo demais já se passou e permanci muda e calada ao sol, ao vento, chuva e tempestades passageiras mas contínuas, bocas que abrem e fecham mas nada falam a não ser da superfície dos dias e de como é delicado, solene tratar desses assusntos, oh por deus! livrai-me dos atoleimados mergulhados na própria ignorância. Novamente, se falo é porque ao menos toquei no meu ouro-velho e fugi - não tive ainda coragem de enfrentá-lo cara limpa. E digo aqui o momento da queda, imediatamente anterior ao da fuga. Rostos e gentes e entes de todas as espécies encarando-me e eu tendo de enfrentá-los por não haver escape. Forte tive de fazer-me, mesmo envolta na fraqueza de abrir os olhos, desviando-os, assim, do de dentro. E sobreposições e medos e quedas e covardias e desgostos e assassinatos em potencial e mortes em potencial e a sua própria morte num segundo só vieram e dispersaram no momento seguinte. E descobri não saber viver esses momentos, ser distraída e relapsa - tanto falar mas nem da superfície ser capaz de sair. E aos poucos fui saindo mesmo sabendo não ter vivido aquilo até o esgotamento - e quem sabe viver no esgotamento não seja um pulo à loucura? Sei de quase nada, muito pouco, mas o que sinto agora é um profundo desfacelamento e necessidade de construção, rever os alicerces. E compreendo agora quando falam uns poucos sobre ser visitado pelo estranho e de lá nunca retornar - o quão perigoso é esse toque que dei. E compreendo o desmoronamento que fizeste do seu quarto-estética para seu quarto-verdade, aonde as coisas podem ter razão de; acontecem. Conheço dois que se valeram disso. Do mais próximo agora compreendo a dor, compartilhando-a. Abrir uma fresta e querer permanecer o mesmo é pedido de morte. Morte de cruz, anti-sabedoria do mundo, revés do nascimento é acolher o que me destroi para poder transformar. E se nem sei o que me faz menos é porque ainda há muito inconsciente mas estranha força surgiu em meio a esse processo e me disse: você tem que ir lá e virar a chave. E sinto agora que posso ir lá e virar a chave, porque carrego um segredo de experiência, de toque do meu ouro. Antes de edificar, desconstruir o resto, quase não ser. Essa é a tarefa.

Montag, Juni 14

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De mim ontem, lembro-me do cansaço de estar aprisionada a um corpo que não me pertencia e a uma lógica que não permitia-me ser; o outro lado apresentou-se de forma drástica e real e por pouco lá não fiquei. A vivência da ausência de sentido agora por mim foi vivida.
De lá levo a experiência calcada no corpo e não mais construída nos mundos idealizados das frases-de-efeito e dos conselhos de teoria: lucidez e loucura andam juntas.
É muito fácil estalar os dedos e puf! desaparecer. Minha grande luta é com a vida.

Dienstag, Juni 1

Para Louise, com amor.


"Meu nome é Louise Josephine Bourgeois. Nasci em 24 de dezembro de 1911, em Paris. Toda a minha obra dos últimos cinquenta anos, todos os meus temas, foram inspirados em minha infância."






"Em nossa recusa a enfrentar o medo, recuamos para a nostalgia. O medo nos condena à rejeição do presente. O presente se mantém intolerável. Devemos pedir ajuda ao passado para solucionar os problemas do presente."


Montag, Mai 24

Para que a alma não desfaleça

Acordei por cutucões fortes no joelho. Abri os olhos aflita e vi um monstrinho indo embora, entre risadas e deboches. Instantes e ainda não acreditava muito no ocorrido. Uma espécie de arrepio subiu-me espinha pescoço nuca medo de estar dentro de algo na qual nem sei o nome, possuída por entes e vozes que luto para transpor.
Assim, de pronto povoada estava de dúvidas e sofreguidão quando abafei um grito dilacerante d'alma - e entenda-me, tal grito era-me importante, constituía nascimento e responsabilidade d'uma dor recém surgida, pulsante; abafá-la por receio de olhares adversos, julgamentos não pertencentes a mim só fez-me ser mais um pouco assassina de mim mesma: morte lenta não desejosa. 
E talvez devesse desculpar-me pelos enferrujos, misérias, atos e omissões; pela falta de forma e o modo que são construídas as relações e ausências. Talvez tudo deva feder um pouco, mas me é necessário esse movimento: tirar as carcaças devagar, cuidando para que a carne não desfaleça, atenta à alma presa ao corte reto, dando-lhe precisão. Jogar oxigênio à ferida, fazendo-a borbulhar e arder como pimenta e sal aos olhos. 

Vizinho de ferida.



"A vida de um homem é o instante onde o mundo, em vão, se ilumina. A pedra, a lua e o rosto do outro não seriam comemorados e celebrados se o breve trânsito de nossa aparição não contasse com a língua e com a palavra. Também os gestos ou a dança e a pintura igualmente celebram, mas é na palavra das línguas que o mundo deixa de ser mudo e pode tocar a aparição. Se o homem deixar de existir e apenas o lagarto ou outro animal grunhir para a lua, então ela será menos lua e algum deus criador que acaso persista em sua incansável persistência terá de reconhecer que sua “obra” não é mais devidamente celebrada e ele, junto de seu imenso narcisismo trabalhista, teria de se suicidar. Celebrar é estar exposto e atingido pelas coisas a ponto de, ao dizê-las, guardar-lhes a vibração, comemorá-las. Estar atingido também pela proximidade do rosto do outro é enxergá-lo a partir do aberto, não sendo o aberto mais do que o lugar de uma aparição intrinsecamente frágil, de uma aparição-desaparição. Mas o homem não gosta de estar exposto; ele é alérgico ao lugar. E, enquanto alérgico, converteu-se num animal blindado e, quando alguém aponta para o céu (como um personagem de Bernhard) e diz: “veja, ali está aberto, vejam, está aberto; a palavra a-ber-to está redigida no firmamento”, então, já não se percebe o que isso quer dizer, pois o homem blindado gosta de viver no fechado e de medir a palmo. O homem blindado expulsou a hospedagem: não está aberto à visitação dos afetos ou da palavra."

Juliano Pessanha, vale a pena.