Freitag, Januar 8

flácida,

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Sim, é dor o que eu sinto agora, comedida estando à beira de um precipício estando num fúnebre silêncio estando absorta pela falta de um eu próprio de um eu firme de um eu presente de um eu que acolha os frutos frustrados frutos podres frutos sem alma. Necessitaria eu de alguma sórdida razão para continuar com essa loucura árida seca feito mãos na enxada anos sem chuva - é necessário conviver solos estéreis, não disseste isso? Não colocaste o dedo na minha ferida e sem responsabilidades jogaste-me pobrezas o meu ressequido, por deus, como ressuscitar agora, já que nem a crença nos meus mortos nos meus antepassados existe? Como continuar se perduro rastejando inflamada a qualquer alarde como quem possui o uno a verdade a cada instante, e a cada instante as coisas transformam-se trágicas e invadida sou de ódio inofensivo nunca cessam as tempestades com a boca aberta grito um som surdo, sem forças, delegado ao esquecimento.
Gostaria eu de entregar-me à não-memória, entregar-me ao drama barato, às chantagenzinhas baixas de quem vive o nada, entregar-me à merda da vida desses dias deixar faltar a força o braço o osso oco do meu corpo quero entregar a ti, verme leitor, as minhas carnes apodrecidas relento juntamente com as moscas, as larvas, o mal cheiro fedor a minha putrefação - hoje celebro com vinho azedo, fermentado, a camila estragada que nasce do vazio de sentido do vazio da miséria de ser de sentir de nada ter a lhe ofertar a não ser cabeça coração e mistério. A perda de mim, a outra que se pôs e faz um aceno tirando-me tripas pulmão fuligem dando-me tiro nas têmporas esmagando-me as ideias as merdas. O que sabes de ser invadido por um milhão de litros de água e um segundo depois ter sede no saara habitar o suspenso a cavidade sem ar sem terra sem consolos nem toques nem de um lado nem do outro experimentar o insosso a clarice pediu para experimentar mas poucos o colocam na boca fazem disso fruto bendito de vidas e como é isso eu não sei e como é isso de ser sempre um pouco mais um na multidão um pouco mais um nessas vias abertas os pés na cidade que desmorona os pés suspensos não quero essa estranha sensação - ah, querida, como se houvesse escolha, recusar-se é um dar-se ao luxo que não lhe cabe agora. Eu te desejo, ilustre desconhecido, para dividir o que não sou, as minhas mentiras, e você incompreensivo, dirá: 'ah, não se preocupe, ficará tudo bem'.
A casa que quero para mim não tem muros nem entradas. Entra-se nela pelas frestas.



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Dienstag, Dezember 29

Rotina: abrir as janelas, as árvores um pouco distantes, me distraio e faço as higienes matinais, abro um pouco os braços, passeio tímida por entre os cômodos, deito-me com mamãe, leio um pouco, café à mesa, a conversa arrasta as horas, as horas arrastam o dia, os dedos, as mãos, pés, o corpo um pouco preguiçoso. Aqui ainda nada se faz.

Donnerstag, Dezember 24

caminhadas,

Sinto frescor agora, e sei que é vento vindo de terras boas, que fazem bem ao coração. Sou invadida de água, úmida e fértil estou aqui no de dentro, ainda não sei bem nomear o que vivo, essa estranha sensação de estar viva no lodo, no lamaçal que tem sido a minha vida. Terra árida deixei para trás, agora preciso afundar meus pés nessa outra terra que se mostra (veja meu bem, brotos e raízes crescendo).

Para poucos, ora pois, desejo peregrinações e desalojamentos muitos, incômodos e nascimentos com as vacas  - que o medo não nos assalte e nos impeça a fazer,

Montag, Dezember 21

 .



- Você ainda está jejuando — perguntou o inspetor, — quando é que você vai parar?
- Desculpem-me todos — sussurrou o artista da fome, e apenas o inspetor, que aproximou o ouvido da grade, o entendia.
- Certo — disse o inspetor, e pôs um dedo na testa, para dar a entender ao pessoal o estado do artista da fome, — nós o desculpamnos.
- Na verdade, eu queria que vocês admirassem o meu jejum — disse o artista da fome.
- E nós o admiramos — disse o inspetor, condescendente.
- Mas vocês não devem admirá-lo — disse o artista da fome.
- Ora, então nós não o admiramos — disse o inspetor — e por que não devemos admirá-lo?
- Porque eu tenho que jejuar; não posso de outro jeito — disse o artista da fome.
- Ora vejam só — disse o inspetor — e por que você não pode de outro jeito?
- Porque eu — disse o artista da fome, levantando um pouco a cabecinha, e falou fazendo um bico com os lábios, como para dar um beijo, diretamente no ouvido do inspetor, para que nada se perdesse, — porque não pude encontrar a comida que eu gosto. Se eu a tivesse encontrado, pode crer, não teria feito nenhum estardalhaço e teria comido até me fartar, como você e todos os outros.

Essas foram as últimas palavras, mas ainda nos seus olhos quebrantados estava a convicção firma, porém não mais orgulhosa, de que continuava a jejuar.


Kafka - Um artista da fome.

E eu continuo a jejuar...

Essa coisa encarar-se,

As palavras fedem, empoeiradas que estão, habitam esquinas, denunciam falta de habilidade, falta de jeito, nulidades muitas até, mas persisto aqui, não posso deixá-las ao vento, não posso desgarrá-las, não permito, luto, esbravejo.
Um tema, é isso necessário, por deus, um algo que soe almas minhas. Sim, poderia lhes contar o meu ontem, como quando no banho, casa deserta, dei-me conta as solidões, aqueles horrores todos, os meus fantasmas ressurgindo das coisas bobas, minha infelicidade solitária essas frustrações. Assim é preciso para que tu vivas, não disse a poeta? Nesses vazios ocos mistérios e na tua ausência talvez me faça mais, eu que sempre desejei ser uma daquelas poeiras na vastidão do céu, perdida na imensidade porém estando com outras estrelas. Enfim, estava lá e corroía-me inteira, sem habitares, estando fundida ao oco, nada mais separava-me, eu era aquilo e não havia fuga. Quando experimento, conheço. Conheci e pensei - coisa bizarra essa. Tanto por vir, oxalá esses medos transformem-se. Lembrei do filme do Lars Von Trier, o ocorrido, o é daquela forma - não há fugas, meu bem, não basta conhecer, é estar de pé e de frente e suportar o pavor o gozo a morte a não-fuga a vontade de estar ausente sendo presente. Saí do banho aos prantos e derepente havia um espelho e no espelho havia uma imagem turva, contornos e eu aparecia e eu estava lá e eu de certa maneira não pertencia àquilo que via, era tão frágil não palpável tantas mentiras... Lembrei-me alguém: 'tenha força o bastante para encarar-se ao espelho e indagar-se a si'. Indaguei indagamos não é mesmo companheiras? Cheguei bem perto e olhei minhas pupilas retraídas um pouco maiores retraídas novamente, não aceitava aquela superfície toda que me cobria, não aceitava o longo dos dias, um dia é demais já por estar vivo, não é? Então porque me privas da eternidade e me mantém aqui, presa a um fio que sem sei nomear, presa a um sem-nome presa a lastros de existência um pouco vivida pacata inerte quase nada e muita raiva e muito pesar e de muita dor fez-se aquele diálogo, as vozes gritavam palavras soltas elas mandam eu deitar-me de vez em quando. O momento era aceitar o refletido, o que eu refletia - os meus olhos bem próximos negros mergulhei num vazio preto preto como o céu de fim-de-noite mas restrito ao corpo. O meu corpo ainda não habita o mundo.
Habitares, cantares, sopros, lágrimas, olhos nos olhos, corpo a corpo, tête-a-tête e saí pra dar um respiro na superfície. Coberta de lama, limpei um pouco o rosto,


Samstag, Dezember 19

oui oui.

Hoje letras fogem aos dedos, prometi, fiz pacto comigo mesmo - preciso continuar, minha garantia de sobrevivência. Queria te contar uma história digna, falar das minhas impressões cotidianas, minhas poucas filosofias, dedicar-lhe meus sóis de verão, mas você bem vê, manter-me viva é a maior tarefa que tenho agora. Necessidade de continuar, preciso pôr para fora verborragias vômitos engasgos (os centenas só das últimas semanas). Convivências poucas e leves me foram tão raras - sentia o abraço da pessoa.
Ontem fez ciúmes na outra fazendo-me carinho. Percebi egoísmo pensando - não, não faria por gratuidade, tem haver sempre ganhos relação troca pessoa-pessoa. Satisfaz carências carências de covardia na vida disfarças ser bem-resolvido, até pode achar fugir dos outros e assim fugir de você, mas a merda é que Camila percebe e disfarça - não conheço nada.

Sonntag, Dezember 13

zeladora.

Hoje, de perfil, vê seu rosto refletido nos olhos dos outros. Sente nojo do que se passa no de dentro de si e talvez no de dentro do outro. Sabe sim, sabe sina maldita essa que a acompanha quiçá tivesse pensado em um agrado em um desinteresse olhar descompromissado, derramar seu corpo sujo e pesado num abismo escuridão - já estivestes lá tantas vezes, o porco dos dias, porque não visitar novamente?
Não sei, de fato, pensar nessas loucuras que nos cobrem turvam o brilho opacidade, sempre gostastes de aparentar-se neutra, qualidades sobrepostas nas roupas tentando esconder o algo de divino o algo templo o algo coberto de tantas agonias, por deus, tantas cascas quinas encontros esconderijos entulhados abarrotados de coisas tem a sensação de que se furasse forte a barriga tudo espirraria, todo aquele líquido mórbido do caminhar dos dias, as suas sujeiras, o seu macado disse ordenou-lhe: por favor, manda-me enxotar todos os seus podres acumulados, todas essas pedras que faz questão de arrastar por cima de si, aposenta esses teus vícios, o passado precisa ser enterrado, querida, chore um pouco, faça um bem para si pelo menos uma vez, uma vez é preciso um a mais sei que estás exausta e não consegue dormir há dias como dormia antes, as coisas mudam, meu bem, provavelmente serás uma velha rabugenta se me deixares aqui empoeirando, peço que me dê aval de ação.
O senhor contou-me depois, olhando-me fixamente: o mundo não precisa habitar tão dolorosamente você. Sinta o leve do bater a água quebrar pedras ou jogue o mundo fora, se quiser posso ajudar-te nessa tarefa, posso apoio um tiquinho de água no deserto e só, o resto é com você, não posso interferir no seu mundo.
O meu mundo não é universo, é fechado, cercado ilusões essas que brincam e se fazem sérias derepente. Cubro-me de respiros esdrúxulos para evitar o sufocamento. Causa mortis - pensaste demais, meu bem, agora é seu corpo lá embaixo e vamos passear um pouco, conhecer o mundo sofrimento tantos desastres agonizos - mostras-te me o agonizo das pessoas do mundo naquele minuto. Um jovem gritou - pá. Um velho sorriu um pouco e foi fechando o olho devagar. Um senhor pediu socorro - encarava-se frente a frente consigo não tinha mais mulher nem filhos nenhum álibi - solidão de morte. Tantos piscavam, uns morriam vendo o céu, queria te amar muito agora, sabia? Gostaria eu mais forte menos frágil - acho que essas madrugadas têm me deixado um pouco zonza e fragilizada. Agora o inferno é estar enfrentar as fraquezas não tenho mais desculpas, acabaram-se todas, é fim de festa, não resta mais nada para ser no lado de fora, é juntar os restos e aproveitar as migalhas. Como é isso de construir paredes eu não sei, tantas coisas por saber, ignorâncias, os pecados por purgar, não sei de que deus eu falo, não sei dos meus afetos, meus amores, minhas paixões. Eu te sofri e enfiei nos buracos pregos redondos médios normais juntei um pedacinho de sua casa desabando. Tentei evitar suicídio de individualidade mas ela já começa a feder um pouco. De novo: passando com o rolocompressor eu lá embaixo tens medo de suicida mórbida de boutique ou pensas que isso é verdade? Nada sei do gozo do cotidiano, dos prazeres de massas, sempre em minhas costas o peso do rolo. Caminho um pouco, paro e deixo-me esmagar. Assim foi minha vida toda, interessante eu estar aqui cinco e quinze da manhã estar com você estar ausente sempre ausente há anos eu pergunto, trombo com pessoas algumas mais outras nada paro e rolocompressor fico estatelada, respiro um pouco e depois sigo caminhando, um pouco mais manca, devagar, descrente. Essa eufórica não sou eu eu não sou só desesperos e risos preciso de sensibilidade e aviões internos.
Meu nome quer dizer assistente de cerimônias religiosas.